Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.{202}

O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:

«Quem mata meu marido é a senhora!

Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!

Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É uma filha amaldiçoada!»

Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.

A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.

O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.

Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se achava já no quarto.

«Aproxima-te desta cruz, Leocadia—disse elle com energia—snr. Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta creatura?