—Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.{203}
«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti sempre digna d'elles.
Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do lance, ajoelhou a par com ella.
E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.
«Estão accesas as luzes do altar.
A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»
O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!
Leocadia sahiu com sua madrasta.
Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua madrasta.
Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte, Leocadia.»