Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente{205} as fibras do coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.

E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens, descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu perfume.

Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um adeus para sempre?

Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!

Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria injuriar a sua saudade!

Para que te encontrei eu, santa!

Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:

«Que é? Não sei o que disse...

—Nada dizia—repliquei eu—Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe, minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.

«Porque, meu amigo?!