Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.

Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam pressurosamente!

A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?{220}

Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a liteira.

Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.

Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.

O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital. Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra reviveram com salgadas ampliações.

Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.

O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia:

«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração cobriu-se de lucto, o punhal vingativo{221} pedia o sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a condigna penitencia da perfidia.