«Senta-te, e escreve.
Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:{28}
«Meu adorado Bem.
«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa compaixão o triste sudario da minha alma.
«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias do rouxinol do salgueiro.
«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.
«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!
«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»
—Ella não entende isto!—exclamou o meu amigo!
«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa: