«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede, pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios do sol oriental!

—Isto parece-me asneira!—replicou o amanuense—Bebendo candeias! Viu-se já um similhante disparate!

«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?

—Quero que entenda: é boa a pergunta!

«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente o que são; e{29} linguas, em quanto a mim, só conhece a de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:

«Nos meus sonhos...

Entre parenthesis. Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.

«Escreve lá, Bento de Castro.

«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.

«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?