A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.
Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.
Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.
Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.{33}
«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.
O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.
«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.
—Podeis fallar-me?—disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo porta-voz.
Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:
—Se podeis fallar-me...