Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e espreitava pelos buracos da cortina o introito do rendez-vous. Espreitava, e escutava, não por mera curiosidade, porque não sou curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito mulheres.
O leitor casto—(para não ser sempre pio), que chegou aos cincoenta annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista, está muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!
Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha quarenta annos, diante dos meus namoros.
A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por causa d'um ajudante{38} d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o dominio da historia.
Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção immoral que a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da França. Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das mulheres lusitanas, raça das Brites, e das Vilhenas, o que os romances de Voltaire, não poderam fazer.
Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!
Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e cahirem no espaço infinito dos conquistadores aleijados.
Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que escorregára do penedo d'Apollo ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a ressaca levava para o mar, e, como Camões,
Dos procellosos baixos escapado,
vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.