Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica, metti-me á cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana; puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo{39} d'uma semana fui deixar um bilhete á exc.ma dona da cadella, que mandára saber de mim todos os dias duas vezes.
Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:
«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me dê o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e ri, e conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da sua visita?
—Oh minha senhora!...
«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer... (Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos de s. exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que progresso immenso em quarenta annos!)
«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.
—Oh minha senhora!...
«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações de infancia. (Nota: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha ella então trinta e dous annos... que infancia! e que relações!) Calcule o impagavel serviço que recebi...
—Oh minha senhora!
Nunca pude passar desta apostrophe palerma: oh minha senhora!