Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro eu.
Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr.ª D. Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.
(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia!{40} Já agora, leitor, não queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala. Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. Este quem é ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D. Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador intrepido da minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era habilitação bastante para ser apresentado.
Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem era, d'onde era, que modo de vida tinha.
O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.
O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.
Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com as liberdades da sua conversação.
Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.
Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela primeira vez, e não sentira ainda o que era amor.
«Sim!?—atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.