Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:
Meu amante coração.
É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito obra que{44} muitos annos depois encontrei executada, com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.
Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, ipso facto, dispensava o almoço,—enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha: panem, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o et circenses traduzi-lh'o em café com leite.
Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a Vicencia; mas como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei Raposo; por consequencia—VICENCIA RAPOSO!
Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!
Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada!{45} D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.
Não o quiz assim a minha desventura.
D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!
O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!