Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce, deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o chapéo na mão.

—Como passou a noite, snr. João Junior?—acudiu ella ao meu embaraço.

«Muito obrigado, minha senhora...—gaguejei eu.{46}

—Passou bem, não é assim?

Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.

—Então passou mal?—tornou ella.

Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas bisonhos, e respondi bruscamente:

«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»

Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.

—Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?