«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.
D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.
«De que se ri v. exc.ª?»—interpellei eu, desarranjando{49} um pouco a minha attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.
—Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.
«Pois não sei?—repliquei eu com ar de triumpho—Allegoria est tropus... V. exc.ª sabe latim?
—Não, não sei.
«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha duas especies de Allegoria, que são: a total, e a... V. exc.ª ri-se? Cuida que eu estou a mentir?
—Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando de ouvir um sabio...
«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu Quintilliano...
—E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?