IX.

Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.

E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.{53}

Eram dez horas da noite.

Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.

Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.

Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca Charpentier.

Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos, divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.

Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto eburnea. Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos. Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me a{54} cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.

Com geito encantador na mão eburnea: reparem que é um verso hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?