«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos... a v. exc.ª
—A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?
Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.
Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára sobre a mesa.
Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva. Entrou em mim o delirium tremens... Foi a imagem de Vicencia que me salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!
Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á carqueja, e outras novas{51} suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio! Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da 1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe faziam.
Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se, fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que nunca, através de trinta annos, pude esquecer:
—O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração, annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o offerecimento do seu coração.
Felizmente para mim entrou gente na sala.
O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr alguns das Confissões de J. J. Rousseau para me animar.{52}