Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora, finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado da cordura com que nos travamos.
Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu consorcio.
Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.
Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.
Horrivel mysterio!{71}
XII.
Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!
Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos—uma mulher a comer figos!—Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no quarto.
Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna memoria:{72}
1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara do preto.