2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de Hermenigilda um bocado do coração da melancia.
3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.
4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.
5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao chão, e fugiu.
Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em minha casa.
Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.
Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....{73}
«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse elle.
—Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na espectativa.
«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.