Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina, abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:
Com dinheiro, pão, e vinho
Sustenta-se o Miguelzinho,
Sem dinheiro, vinho, e pão
Sustenta-se a Constituição.
A Megera de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua Jeanne d'Arc, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.[2]{93}
O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que resolveu ir viajar, se o deus d'Ourique não favorecesse a causa do marquez de Chaves.
Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de forças, para repassarem as fronteiras.
Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo brigadeiro Claudino.
Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,{94} mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.
Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.
Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.
Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.