Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:
«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com esses herejes!»
Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o receberia{95} em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de sua familia.
Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso razões fortissimas.
Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.
Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração, ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura homœopatica.
Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e continuo a merecer a confiança dos pais de familia.{96}
[2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça. Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta quadra:
En porfias soy manchega,
Y en malicia soy gitana;
Mis intentos y mis planes
No se me quitan del alma.