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LIVRO SEGUNDO.

DINHEIRO.

I.

Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do Pastelleiro, nos suburbios de S. João da Foz.

Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem morava alli.

Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!

Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera então{114} para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a visse.

Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.