«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.
A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia pouco avistal-a.
Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.
Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!
Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!
Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.{115}
Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.
E por isso aquella mulher do Pastelleiro entrára em minha alma, vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!
Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo d'amendoas doces.
Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.