N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era d'aquellas que se curam homœopathicamente, e eu de certo não conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a homœopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente homœopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura tão{116} depressa das molestias d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.

Acabem as divagações.

Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e imaginava.

Não pararam aqui as visões estupendas.

D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.

Maravilha!

Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o suspirar de brisa por entre flores,{117} e o murmurar de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Gœthe, a descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.

Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.

Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos rochedos.