E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e cantei:

Neste ermo, triste, e só, e abandonada
Quem desta alma o gemer escutará?
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:

São horas mortas; vem, ó meiga fada,
E um beijo para o céo leva de cá.
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro. O Deus, ecce Deus do famoso poeta, experimentei-o então. Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das expansões e eu prosegui:

Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!
Meu hymno, triste, como o teu dirá:
Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.

Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta. Decorreu uma longa hora. As{120} orlas do mar arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.

E a janella ainda aberta.

Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.

Ver-me-ia ella?