Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno de mim.
Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador o do mar!
Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!
Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta alma arida!{121}
III.
O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das estrellas.
Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.
A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me inspirava.
Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada trazeira{122} da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.
Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.