«E ella não toma banhos?

—Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.

«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.

A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:

«V. m. vai áquella casa?

—Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.

«E quem lhe faz os recados?

—Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim—concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva—em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.—Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta. Não vi Felismina, nem a criada.

Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.{126}

IV.