Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.
E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos{127} com a aterrada Thereza, estivesse resando a Magnificat e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!
Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.
Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,—o que é peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!
Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos mergulhados nas trevas onde me vira.
Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!
E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, não!
«Póde abrir—disse ella—esse portal grande, e recolher-se da chuva.
—Não a sinto, minha senhora—balbuciei eu.
«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára tão cedo—tornou ella.