—As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...{128}

«Como?!—interrompeu ella.

Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.

Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.

Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.

A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos desambiciosa.

«Credo!—-exclamou ella—o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que preparo!

—Não fuja, tia Poncia—disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres—Venha cá, tia Poncia, que eu preciso das suas consolações.

«Valha-o Deus!—tornou ella—Suou tres camisas, e pranta-se no meio do soalho com o cadable ao ar!

—Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.