«Que está ahi a alanzoar o snr. João? Se eu o percebo,{129} cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.

—Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.

«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!

—Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá aquellas pantalonas, e fallaremos.

«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o sal na moleira...

—Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.

«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos a defuntos?

—Não me córte o discurso. Esta mulher vive...

«Ah! sim? inda bem, inda bem!

—E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...{130}