«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?

—Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e parece que está cada vez mais tonta!

«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!

Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno—tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de orações ad rem.{131}

V.

Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.

Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia, quando tres vultos, vindos do{132} lado de Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros pareceram-me armados de paus.

Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.

Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.

Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.