Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:
«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a um homem só.»
A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda, com um bacamarte engatilhado.{133} Vendo-me, veio direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»
O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não carecia d'esta novidade.
Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.
Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado{134} d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.
No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:
«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»
Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado! Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando com ella, lhe disse:
—A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?