Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»
Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o{137} meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.
Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um tal Estevão, em presença d'uma tal Magdalena, não podendo vencer o susto do primeiro encontro, faz um esforço como um homem que fecha os olhos para saltar um fôsso. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.
«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer, depois d'uma investida tão vehemente.
—Boas noites—murmurou ella com voz abafada e tremula.
«V. exc.ª conhece-me?—tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.
—Parece-me que é a pessoa que hontem...
«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...
—Devo-lhe um grande favor—atalhou ella, não menos agitada que eu—e por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...
«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me diga se eu devo pedir-lhe perdão...