—De que?!{138}
«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...
—A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...
Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de apagar a luz, e estava já na janella.
Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente prosaica.
Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu voltei de espionar o quinteiro:
—O senhor de certo me não conhece...
«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer como eu a conheço...
—Queira dizer...
«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»{139}