Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no Renegado de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella me não interrompesse com vehemencia:
—Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...
«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!
—Felismina! (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira, não é verdade?
«Sim, minha senhora.
—Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...
«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...
—Não me surprehende...—tornou ella vivamente commovida—Eu sei que me ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu chorava então...
«Que faria a esse homem?
—Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para jámais se alliviarem...