«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?{140}
—Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.
«Enganal-a...—interrompi eu, com exaltado resentimento.
—Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?
«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que a pergunta me era feita.
—Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.
«Só por compaixão de si mesma?—atalhei eu, sinceramente commovido—Não será antes pena de mim?
—De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.
«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer irmãos?
—Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...{141} quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me, se poder.