«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe acudir.

—Não póde, não póde...—interrompeu ella soluçando—O mais que póde é compadecer-se.

«E não é a compaixão um lenitivo?

—É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...

«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?

—Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.

«Como?!—interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de D. Quixote de la Mancha.—Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!

—Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz n'uma casa que está ao fundo do{142} quinteirão. Quem sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.

Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.

A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã. Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as suas palavras: