—É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque{143} em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.—Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.
Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario, e fadado para grandes lances.
Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo{144} o meu fastio ao jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.
Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:
«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.
Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.{145}
VII.
Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.
Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas—esse, que a maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.{146}
Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.