Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação desta senhora.
D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos o seu nome.
Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de barbaros—essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os meus herdeiros.{147}
Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.
Ahi vai agora o conto:
Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.
Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,{148} entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove annos.
Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e mais eu.
O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas contemplações, sósinha.
Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido Vasco—chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.