Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos de metaphoras—amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.
O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.
Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É infallivel, nas mulheres{149} que vieram com esse aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta edificativa obra.
Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»
Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar Leocadia.
Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.
Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.
Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na{150} infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.
Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas, exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá em baixo o nosso paraizo.»
Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.{151}