Nos arrabaldes de Londres, em uma quinta de delicias, quantas póde imitar da natureza a arte britannica, vivia, n'aquelle tempo, um portuguez que a intolerancia politica expatriára em 1828. A fortuna commercial dava-lhe desvelados amigos para o espirito, optimos convivas para a mesa e gentis mulheres para o coração. O nosso patricio, encarreirado prosperamente no trafico mercantil, assentou que lhe era dever acudir aos desterrados pobres; e assim, quantos portuguezes se soccorriam de sua valia encontraram franco e inexhaurivel aquelle coração de ouro, e o ouro das suas gavetas. Os convivas habituaes da sua mesa eram um jurisconsulto dos mais celebrados em Londres, e um portuguez de excellentes qualidades, nosso ministro actualmente na côrte de Madrid[3].
Um dia, porém, os contubernaes sahiram do encantador abrigo do emigrado, porque eram de mais em alegrias, cuja dôce poesia está no resguardo e recolhimento de dous. O portuguez fôra o preferido d'aquella «formosa das violetas» que Julio Janin relembra no seu folhetim. M.elle Elisa Loeve-Weimar, a irmã do nacionalisador de Hoffmann em França, do barão, do marquez, do fidalgo florentino, casára com o nosso patricio, que era então um rapaz alegre como a felicidade, descuidado do futuro como criança a brincar entre flôres, todo expansibilidade em olhos e palavras do muito bem querer que lhe exuberava do coração.
Coração e nome são ainda os mesmos n'aquelle homem, vinte e sete annos depois. Porém, ha de reconhecer-se hoje o festejado e amado noivo da irmã de Loeve-Weimar n'aquelles cabellos brancos e fronte avincada do jornalista portuense? Aqui vol-o apresento agora: estendei a mão áquella mão liberal que muitos infelizes beijaram. Abraçai José Joaquim Gonçalves Basto, e sentireis pulsar o melhor e mais infeliz dos corações!
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Infeliz!... Com tão prospera monção ao entrar em bonançoso mar? Amado por aquella peregrina dama, cujo espirito cultivado em Paris e Londres competia com a distincção da belleza?
Infeliz, sim, e porque não? A desgraça, quando colhe de sobresalto os seus predilectos, quebra os elos da corrente que parecia forjada por esforço de virtudes domesticas para os duradouros contentamentos do amor. Compraz-se ella em abater e rasourar ao nivel das baixas condições os mais altos espiritos.
Gonçalves Basto, decorridos dous annos de esposo e pai, foi vencido na lucta com imprevistas calamidades commerciaes. Empobreceu. Sahiu de Inglaterra, e repatriou-se com a sua familia. De repente, e o mais logicamente que o puderam fazer, os amigos desampararam-o, desobrigando-se da divida, esquecendo o credor. Permaneceu, com tudo, leal no infortunio um que se mantivera desprendido na prosperidade: era José Vieira de Carvalho, moço portuense abastado, instruido e bom. Deliberára Vieira fundar um jornal de parceria com Antonio Bernardo Ferreira, e com o actual deputado e integerrimo caracter, o snr. Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães[4]. Fundaram a Coalisão, cuja redacção e responsabilidade aceitou Gonçalves Basto. Os proprietarios, porém, a pouco e pouco se desligaram de compromissos, declinando sobre o redactor o encargo de sustentar intellectual e materialmente o jornal. Gonçalves Basto, extincta a Coalisão, fundou o Nacional, faz hoje dezoito annos.
Entretanto, José Vieira, rico e celibatario, antevendo o proximo termo da vida, annuncia que a sorte dos filhos de Gonçalves Basto está segura nos seus haveres. Morre em Paris, e o testamento é roubado em beneficio de parentes remotos.
Na contra-revolução de 1846, Gonçalves Basto, ao serviço da Junta do Porto, foi nomeado commandante d'um batalhão de artistas. Reprime a indisciplina, e dá no campo o exemplo da coragem um tanto insubordinada, porque espingardeava os hespanhoes que transpunham as fronteiras do norte, quando a Junta lhe ordenára que respeitasse a intervenção. E, n'este entretanto, a familia do jornalista, esposa e tres filhos, bellissimas e adoraveis crianças, viviam da gratificação mensal do commandante: Dez mil reis............
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