José Joaquim Gonçalves Basto envelheceu cortado de lancinantes dôres; porém, duas vezes tão sómente lhe vi o rosto lavado de lagrimas: foi ao resvalarem-lhe dos braços á sepultura dous filhos. A pobreza cerra-o de perto ha quinze annos; e elle como que tem minas de diamantes na mais risonha philosophia que ainda vi! É sempre com um sorriso que vos elle diz: «Não tenho nada». A desgraça tem d'estes sorrisos que são, a dentro do peito, unhas de ferro.
E ella, a «formosa das violetas,» de 1836, a irmã do barão em França, do fidalgo em Florença e do marquez em Hespanha? Elisa Loeve-Weimar vai, algumas vezes, ao cemiterio da Foz, onde vicejam umas flôres plantadas por sua mão sobre a sepultura de um dos seus filhos. Alli, de certo lhe esquecem as pompas e as vaidades de sua brilhante mocidade. Aquelle cômoro de terra separa esta mãi das gloriosas presumpçoes da irmã do fastuoso litterato, da formosa que o principe dos folhetinistas francezes recordava vinte e sete annos depois com as calorosas expressões d'uma saudade que parece o reflexo do amor. Que tem que vêr no cemiterio da Foz aquella Nióbe com a sua belleza preconisada em Paris? Ai! formosura! flôr d'um dia, queimada pelo gear de uma noite! E tu, talento! flamma esplendente que mais nos cerras a escuridão, quando nos não alumias a vereda por onde o infortunio nos assalta! Ó santa de todas as dôres de mulher que é mãi! quem saberá contar as cruzes do teu calvario? quaes almas, sequer, se inquietam, pensando o que foste, o que és, e que paragem final te assignalou o destino!
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Meu caro Basto, releva ao teu amigo de dezeseis annos o vir elle dizer dos teus infortunios em face d'uma gente que os ha de lêr por ser isto em folhetim e ageitado á guisa de romance. Quando entrei n'esta vida dolorosa das letras, achei-me comtigo. Encontrei-te n'este tormento de Sisypho e ahi te vejo ainda agora a rolar o penedo. Se ás vezes paras um instante na ladeira, é para contemplares como a estupidez e a infamia trazem avassallados os fiscaes da republica, e como elles galgam arreiados de placas e fitas, em quanto tu vaes descendo á margem do rio da morte, olhando em ti, e antevendo próximo o dia em que não terás um pão para repartir com tua familia. Ha trinta annos que esperas e trabalhas por affecto á patria e por forçada violencia de operario d'esta galé. Deves ter desmaios de angustia quando em ti reparas e não vês homem que possa dizer-te: «Soffri e lidei tanto como tu, e recebi dos governos do meu paiz a retribuição de igual desprezo». Lucta, meu amigo; e, quando mais não puderes, vinga-te morrendo como o soldado do padre Vieira, e vai saber nos segredos da divina Providencia que mal devias fazer à patria e aos teus concidadãos para que elles te beneficiassem».
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Algum tempo depois, José Joaquim Gonçalves Basto, quando o circulo de ferro da penuria se apertava, encontrou a mão poderosa de um ministro que lh'o partiu. A salvadora chamava-se a Justiça, e o ministro era o snr. Fontes Pereira de Mello.
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Ora, como em 30 de setembro d'este anno se suicidasse, no Porto, com um tiro, a minha «formosa das violetas», pareceu-me apropositada a ampliação e complemento do meu folhetim de 1863.
Elisa Weimar nasceu em Paris em 1805. O barão Nemi Loeve-Weimar, seu pai, era allemão, oriundo de israelitas. Exercera funcções importantes na côrte de Luiz XVIII. Em 1814, quando o exercito prussiano infestou o territorio francez, a familia Loeve-Weimar retirou para Hamburgo. O futuro nacionalisador de Hoffmann seguiu alguns annos a carreira commercial; depois, apostatou do judaismo, converteu-se á fé catholica, e regressou a Paris, ao mesmo tempo que M.elle Elisa foi completar em Londres a sua educação litteraria.
Conhecedor dos idiomas e litteraturas do norte, o moço escriptor alistou-se vantajosamente de par com os litteratos de mais voga. Entrou seguidamente na redacção do Album, da Revue encyclopedique e do Figaro. Muitos livros allemães desconhecidos em França trasladou-os elle com estylo seductor; e da litteratura d'além-Rheno publicou em 1826 um compendio. Traduziu depois, com excellente exito, romances de Vander-Velde, Contos de Zschokke, de que auferiu renome e dinheiro a granel. Na Revista de Paris, cujo fundador foi, publicou novellas e artigos de esthetica. Em 1830 substituiu no Tempo o celebrado Imbert na redacção dos folhetins theatraes, e excedeu-o na graça mordente e na dicacidade engenhosa. A pujança do critico era tal que um empresario e director da opera lhe deu sociedade nos lucros do theatro, a fim de o amaciar e polir com o attrito do ouro. «É inutil acrescentar, diz um biographo, que, no conceito do folhetinista, o modo como era dirigida a scena lyrica não deixava nada a desejar».