Volvido um anno, solicitou-o a Revista dos dous mundos para escrever a «chronica politica». N'esta ardua missão houve-se com rara fortuna e dexteridade, flagellando os personagens mais graduados. Os ministros galardoaram-lhe a satyra, enviando-o diplomaticamente á Russia com uma missão temporaria e especial ao imperador Nicolau.

Esta enviatura acresceu ás despezas dos negocios estrangeiros 60:000 francos annuaes: era cara a mordaça. Regressando a Paris, foi nomeado consul de França em Bagdad.

A revolução de 1848 esbulhou da brilhante posição o apostata da republica mal rebuçada; quando porém Loeve-Weimar chegou demittido a Paris, já a reacção vingou repôl-o na diplomacia, indemnisando-o da injustiça com o consulado geral de Caracas (America do Sul). Chegado á capital da republica de Venezuela, Loeve-Weimar, receando a febre amarella, pediu licença, e veio a Paris requerer a transferencia para o consulado geral de Lima, que lhe foi dado.

Preparava-se para a viagem quando a morte o arrebatou em Paris no dia 7 de novembro de 1854.

Acrescenta o biographo em phrases pouco funerarias: «A morte é de crêr que o apanhasse com as madeixas encaracoladas em papelotes; porquanto o seu trajar, o apontado da sua pessoa, e mormente os esmeros que punha na sua cabelleira loura, lhe haviam sido a constante preoccupação da vida. A tal respeito, se conta que o primeiro dividendo que recebeu na empresa lyrica, empregou-o na compra de um vestido completo de velludo escarlate lavrado que lhe custou 25:000 francos. É o que faria, nem mais nem menos, uma lorette! Não custa, pois, a crêr que elle, sempre narcisando-se e sempre rapaz, acabasse, já em annos outoniços, por esposar uma estrangeira rica. Luiz Filippe fizera-o barão. Um dia, deu-lhe na veneta de abrir o seu brazão de fresca data em um manto de arminho com a corôa de duque; fez-se, pois, enducalisar, mediante dinheiro, pelo governo hespanhol. Afóra as obras já referidas, deixou Scenas contemporaneas, publicadas com o pseudonymo de Comtesse de Chamilly. O livreiro Ladvocat tambem imprimiu em 1840, sob o titulo homerico de Népenthès, uma selecta de seus artigos de jornaes e revistas».

Um dos admiradores mais exaltados de Loeve-Weimar foi o insigne Philarète Chasles, professor do Collegio de França, ha pouco mais d'um anno fallecido, com reputação europêa. Nos seus Estudos sobre a Allemanha no xix seculo, publicados em 1861, recorda-se de Loeve-Weimar, no capitulo intitulado Os tres magos do norte. Um dos tres magos era o nacionalisador de Hoffmann.

São estas aproximadamente as palavras de Philarète Chasles: «... Vêde-me este personagemzinho[5] franzino e louro, gracioso e fino, melodioso e sardonico, taful, garrido, esbelto, refinadamente casquilho. Casou romanticamente. Assim se casavam quasi todos os litteratos do nosso tempo. É Loeve-Weimar, aquelle que escreveu o Népenthès, e collaborou na Revista dos dous mundos com o doutor Véron, Charles Nodier e commigo. Acabou por ser em Bassora ou Badgad não sei que sultão oriental bochechudo, pantafaçudo, enojado, somnolento e amodorrado. Este pintalegrete, este chasqueador, aliás amabilissimo, que foi o adail, o porta-bandeira do motim litterario de 1815, não nascera para contemplações absortas nem aventuras grandiosas. O salão do seculo XVIII era a mais frizante moldura da sua vida e o theatro que mais lhe quadrava à indole. Procedia de Champfort, de Champcenetz e de Cazzotte. Tinha o desempeno social, o conhecimento dos homens, a flexibilidade, a solercia. Como Congrève, pavoneava-se de não ser homem de letras. Arreda! Não que a tinta suja os dedos...

«Delatouche introduzira Hoffmann, e Loeve-Weimar nacionalisára-o francez. Loeve arregaçou os punhos, adelgaçou-lhe as grosserias, recobriu as côres dubias, encurtou as demasias, elidiu os destemperos, amenisou as asperezas e recompoz, sob pretexto de versão, um novo Hoffmann, que deu brado em Paris. Inventou-se então uma palavra para tamanho exito: o fantastico... A França morreu de amores por Hoffmann falsificado por Loeve e apregoado por Koraff...»

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Ahi está o que sei do irmão da suicida.