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José Joaquim Gonçalves Basto, no fim do anno passado, alegrou a minha mesa com a sua jovialidade, com as suas épicas faculdades digestivas. Estava comnosco Placido de Freitas Costa, um galhardo espirito com todas as graças petulantes dos rapazes de 1850. Não tem ainda trinta annos, e protesta contra o marasmo dos homens da sua geração--uma gente que tem o coração em modôrra e a alma anhelante no dominio de quatro inscripções.
Não havia ahi distinguir entre os dous na competencia de festivas rapazices. Alta noite, sahiram de braço dado, percorreram os theatros e passearam as ruas até ao romper da aurora. Gonçalves Basto perfizera setenta annos n'esse mez. Ao outro dia, Placido de Freitas dava um jantar ao decano da imprensa portuense no Hotel do Louvre. Os commensaes eram todos rapazes e alguns estrangeiros. Gonçalves Basto brindava-os nas suas linguas, e as risadas estrondeavam quando elle salgava os discursos com as facecias que se usam lá fóra nos lautos banquetes britannicos em que o corpo, mais debil que o espirito, resvala para debaixo da mesa, e todo homem se fica então parecendo com Horacio ou Numentano a resonar no triclinio.
Dous mezes depois, estando eu enfermo, disseram-me que José Joaquim Gonçalves Basto adoecera, pela primeira vez na sua vida. Ao outro dia, mandei saber como passára a noite. Tinha morrido ás cinco horas da manhã.
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A viuva, participando-me que seu marido era defunto, relatava o caso tão glacialmente como se historiasse o trespasse do seu quinto avô. Todavia, tinha magoados toques o seu estylo quando o arguia de haver deixado hypothecadas fraudulentamente as propriedades em beneficio de varias mancebas.
A falta do marido, que para ella representava quatro libras mensaes, verdadeiramente não authorisa a hypothese da pobreza. Os numerosos e extensos annuncios que publicava, em resalva das suas propriedades, eram pagos. Visitava as livrarias e comprava livros. Tinha uma casa decentemente trastejada, e servia-se com criados a quem pagava talvez, não os confundindo com os senhorios.
Quando o proprietario da casa lhe enviou mandado de despejo e sequestro no dia ultimo de setembro, Elisa Weimar fez trancar as avenidas. N'esse momento, a sua alma aterrada pelo estrondo dos esbirros que arrombavam as portas, estremeceu, e... acordou. Eis o momento da lucidez! Ao cabo de seis annos de demencia, relampagueou-lhe na razão o fulgor d'um corisco; e então, vendo-se desgraçada e ridicula, matou-se.
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Adeus, minha «formosa das violetas»! O teu Julio Janin, o teu cantor, quantos te amaram e admiraram são já mortos, desde Henri Heine até Philarète Chasles. Como devias ter morrido antes da velhice, a tua alma sempre juvenil desamparou-te; e emquanto ella gemia nos cyprestaes do Père-la-Chaise a cada sahimento dos teus amigos da mocidade, o teu corpo inerte e estupido immergia no pesadêlo das sonhadas riquezas! Ias ser baldeada aos apódos das turbas, e levada pela policia á caverna das doudas, quando a tua alma regressou nas suas azas de luz, radiou por sobre a área negra da tua suprema desgraça, e ahi te alumiou o suave reclinatorio da sepultura. Era a hora bemdita ou maldita da morte. Abraçaste-a. Descansas. Em uma das tuas cartas me escreveste ha vinte annos, estas palavras de Balzac: Cada suicida é um poema sublime de melancolia... Adeus! quando eu souber onde a caridade te sepultou, irei levar-te um ramo de violetas.