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A demencia de Elisa Weimar manifestou-se n'um lance que, a não ter a irresponsabilidade da loucura, seria o maximo desdouro--uma catastrophe moral. Foi ella pessoalmente delatar á authoridade civil que seu marido e outras pessoas conjuravam contra a dynastia e elaboravam tramas sanguinolentos nos subterraneos da officina do Nacional. O magistrado, como se a respiração da mentecapta o contagiasse provisoriamente, lançou inculcas, adestrou espias, afuroou certas luras onde os conspiradores poderiam alapardar-se. Afinal relaxou-se um pouco, confiando a sorte da dynastia ás fatalidades indeclinaveis do destino.

D'outra vez, a deploravel senhora, quando o meu querido amigo José Cardoso Vieira de Castro era já fallecido em Loanda, denunciou ao administrador do bairro de Cedofeita que, em casa de seu marido, estava escondido Vieira de Castro, fugitivo de Angola, onde, de accordo com as authoridades, dera morto por si. Esta denuncia foi desprezada com bastante admiração minha. Varias pessoas me disseram por esse tempo que Vieira de Castro passeava vivissimo na America ingleza; não seria, pois, absurdo fazel-o viajar até casa de Gonçalves Basto, na Ramada Alta.

N'esta visualidade de Elisa ha uma coincidencia memoravel. Na casa que ella indicára como escondrijo do condemnado, hospedára-se Vieira de Castro com sua senhora, quando chegaram a Portugal. Morava então alli seu irmão Antonio. No anno seguinte, foi habital-a Gonçalves Basto, attrahido pela belleza do sitio e prazeres da jardinagem em que se occupava todas as horas vagas dos seus labores de escrivão de fazenda.

Aqui viveu tres alegres annos o fatigado lidador do jornalismo, cultivando flôres, morangaes, parreiras, e fabricando elle mesmo, na qualidade de lagareiro, o seu vinho, com que, no estio, deliciava os hospedes.

N'esta innocencia de patriarcha, o assalteou um dia a esposa, ao cabo de nove annos de divorcio, intimando-lhe que sahisse d'aquella casa que era d'ella. O fleugmatico marido enfardelou alguns objectos de primeira necessidade e mudou-se, como quem foge. Tinha juizo. Aquella visão etherea de J. Janin, olorosa de violetas, recendia agora á polvora e phosphoro dos rewolvers, desde que o rapazio da Foz lhe pegou de apupar as abas amorphas e infinitas de uns chapéos de palha mastreados de escumilhas variegadas.

Magôa-me verdadeiramente desfazer algum tanto na sentimentalidade com que, em alguns periodicos, se lastimou a miseria de Elisa Weimar. Vi escripto que a suicida experimentára as agonias da fome, da casa sem aconchego, do desamparo dos indigentes. Não é exacto isto. Ha de haver quatorze annos que ella foi a Paris instaurar um pleito sobre a herança de seu irmão. A acção intentada terminou por conciliação, lucrando a irmã de Loeve-Weimar uma pensão annual e vitalicia de 3:000 francos. Além d'isso, recebia 18$000 reis mensaes que lhe dava o marido. 750$000 reis bastariam ao decente passadio de uma senhora com regular entendimento para governar-se; porém, se os proprietarios dos predios que ella habitava recorriam ao expediente das penhoras, é porque M.me Elisa Weimar não pensava normalmente ácerca dos senhorios; ou, no estado informe das suas idéas embaralhadas, não podia conciliar as obrigações impostas pelo Codigo civil, no artigo 1608, que reza: O arrendatario é obrigado a satisfazer a renda, etc.

De mais a mais, esta senhora presumia-se muito rica e muito perseguida pelos jesuitas--talvez reminiscencias delirantes da familia do general Simon de E. Sue. Á volta do Porto, reputava propriedades suas, rusticas e urbanas, as campinas mais ferteis e os chalets mais imbrincados. Afóra isto, dava-se como directa senhora e emphyteuta de terrenos na Foz e outros pontos convidativos a edificação. De modo que, se lia no Primeiro de Janeiro ou Commercio do Porto o annuncio d'uma propriedade á venda, no dia seguinte contra-annunciava que a propriedade era sua, ainda mesmo que a não tivesse arrolado no tombo imaginario dos seus haveres litigiosos. Aqui ha mezes, um padre que se dizia procurador do meu amigo Custodio Teixeira Pinto Basto, replicando a um desses contra-annuncios, allegou, na imprensa, que a snr.ª D. Elisa Loewe-Weimar estava enganada; pois que os predios, quintas e chãos que ella reputava seus, eram indisputavelmente do seu constituinte o snr. Pinto Basto. Em resultado d'este desmentido, assignado por um padre, me escreveu M.me Elisa confirmando-me na guerra que os jesuitas lhe moviam, confederados em espolial-a porque era protestante e estrangeira desprotegida das authoridades portuguezas. Em virtude do que me rogava que sahisse em sua defeza e lhe communicasse os alvitres a seguir mediante cartas que, a uma hora determinada, eu devia introduzir pela fresta d'uma das suas janellas ao rez do chão, visto que a sua correspondencia lhe era subtrahida no correio pela Companhia de Jesus.

Ás vezes, parava na rua, e detinha-se a examinar a frontaria d'um predio. A final, recordava-se que era um dos seus, entrava no pateo, sacudia rijamente a campainha, e fazia saber ao morador que estava alli a senhoria para vêr se eram precisas obras na sua casa. Era inoffensiva; mas não deixava de ser incommoda esta maneira de doudice.

Ha quatro annos ainda, vestia-se singularmente. Quando a saia era azul com requifes encarnados, o corpete era branco, e verde o filó do chapéo. Gostava muito do vestido de velludo preto e botinas brancas. Os transeuntes paravam descaridosamente a rir, e ella passava, triste e solemne como o symbolo da desgraça n'um baile de carnaval. N'estes dous annos derradeiros, trajava menos que modesta, pobremente, um capotilho côr de castanha, apresilhado na cintura, e um chapéo campestre de palha côr de bronze. Não erguia os olhos, nem correspondia aos cortejos, quando algum raro encontradiço com memoria e coração reconhecia, n'aquella mulher encanecida e trôpega, a esbelta e irrequieta franceza de ha trinta annos, e machinalmente se descobria como se faz a um esquife coberto de crepe e assignalado por uma cruz amarella.