Eu caminhei placidamente para aquelle homem terrivel, abeirei-me d'elle que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente de lagrimas:
—Perdôe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar os beneficios da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericordia divina.
Encarou-me d'um modo indefinivel. Sahiu do quarto, e, já fóra, murmurou seccamente:
«O snr. padre recolha-se ao seu quarto.
Relancei um derradeiro olhar para o leito: não a vi; mas ouvia o soluçar alto e cavernoso do peito que se esphacellava.
Mal entrei ao quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lagrimas copiosas. Levantei a Deus o espirito repassado de terror e compaixão, pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de commiseração em tão carniceiras entranhas.
N'este lance entrou elle, assentou a mão direita sobre o meu hombro, e disse:
«Aquella mulher vociferou uma infamia digna da sua deshonra, se quiz desculpar o seu crime com as infidelidades de que me accusa. A mulher que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera que a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei o esqueleto do homem, que a deshonrou, da missão de a ir matando lentamente. Olhe que eu amei aquella mulher. Não a seduzi, não a illudi, não a fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a a seu pae. Elle consultou-a, ou fingiu que a consultava, como quer que fosse, esta mulher veio risonha para os meus braços; chamou-se com orgulho a baroneza de ***; mentiu-me cem vezes accusando-me de ingrato ao seu coração que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a sua vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De quê? de que hão de vingal-a os irmãos? De eu lhe haver matado o amante? Que me responde a sua christã philosophia?
—Que o terror que V. Ex.ª me incute não me deixa atinar com palavras que o commovam...—Balbuciei.
«Mas responda, snr.!