—Respondo ajoelhando novamente a supplicar-lhe o perdão da culpada.
«Não posso!—bradou elle—Ha dois annos que não sahi de dia d'esta casa, receando que todos saibam da minha deshonra. Não posso perdoar-lhe sem que a providencia me desopprima do vexame do meu opprobio!
—Seria generosidade havel-a matado...—interrompi.
«Bem sei—redarguiu elle—bem sei. Ella soffria cinco minutos de castigo, e eu ficava soffrendo uma vida inteira de vergonha. Eram supplicios incomparaveis! Alem de que, se eu a houvesse esmagado debaixo do pêso da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia, lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara para que se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino... Comprehende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infamia é uma convenção, e toda a honra de marido que se desaffronta ha de luctar depois com a deshonra irritada dos maridos esporeados pelo zelo devassissimo das esposas? Conhece o mundo como Christo o encontrou ha 1855 annos? Sabe o que veio fazer Jesus Christo á terra?
—Morrer pela redempção dos que o mataram, snr.
«Não o percebo!—exclamou elle com um formidavel brado, e sahiu do quarto...
Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido com o sibillo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por ella.
Ao alvorejar da manhã, vi um creado que perpassava no corredor. Perguntei-lhe a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia deitado um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado sahir do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus comprimentos com os mais ardentes protestos de eterna gratidão.
Despedi-me assombrado d'aquella casa, onde se respirava um acre nauseativo de cadaveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que eu não sentia a chuva glacial d'aquella manhã de 24 de dezembro de 1855.
Fecho a minha historia com a pedra que cobriu o cadaver da baroneza de ***. No dia 27 de dezembro me disseram uns pastores convisinhos que a fidalga morrêra á hora em que as familias honradas e felizes se ajunctavam para receberem as bençãos dos seus anciãos, e commemorarem com sanctos jubilos o nascimento do divino Redemptor.