O meu creado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar uma casa grande com aspecto senhorial de torres e ameias.
Distava-nos d'alli obra de meia legua.
Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada. D'aqui enxergamos luzes trementes ao travez de vidraças, e ouvimos o latir de cães.
Apeei, e desci amparado no braço do creado, cujo coração palpitava de medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobis-homens, que, no crêr e dizer d'elle, eram vulgares por aquelles despenhos e selvas de castanheiros.
Consoante a minha philosophia me foi acudindo inspirativa, combati as crenças do meu pobre Manoel, cujo excellente espirito foi cedendo passo a passo á rasão omnipotente, por modo que a final incommodava-o mais a perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobis-homens. Eu, n'este receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espirito. Figurava-se-me calamidade superior ás minhas forças o ter de pernoitar sobre um chão alagado, e sob o pavilhão de céo tão inclemente.
N'esta conjectura, ouvimos o ladrar dos cães á nossa esquerda.
Á primeira vereda que topamos, na direcção do consolativo signal de povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos com um largo portão de quinta. Manoel aldravou com quanta força lhe déra o contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos da quinta remettessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam o alto muro.
Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queriamos. Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandella, e pedia ao dono d'aquella casa a caridade de me agazalhar e ao meu creado por aquella noute.
Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão depois de haver acorrentado os cães, e nos metteu á cara uma alanterna de furta-fogo, deixando vêr debaixo de cada braço uma pistola de alcance.
Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacifica, e a tão pacifica quanto estupida do meu Manoel, o creado caminhou serenamente diante de nós.