Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do fidalgo, e acrescentou que a fidalga estava a morrer ethica.
—N'esse caso—tornei eu—queira dizer ao snr. barão que eu não quero causar-lhe o menor constrangimento na situação triste em que está. Basta que S. Ex.ª nos mande recolher, que nós sahiremos cedo sem perturbar o seu socêgo.
Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabellos de páo com grandes armas pintadas no alteroso espaldar.
D'ahi a pouco, fui levado a outra sala mobilada á antiga com cadeiras de coiro marchetadas de pregaria amarella, á mistura com uns tremós dourados e artezoados do reinado de D. João V, segundo me quiz parecer. Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam clerigos mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com habito de Christo um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mór.
N'esta contemplação me interrompeu o fidalgo.
Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta annos; tinha barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros, impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava a medo, não sei porquê.
Interrogou-me gravemente sobre o ponto d'onde vinha e para onde ia. Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e circumstanciando-as para d'este modo captar a benevolencia do fidalgo que parecia escutar-me distrahido.
D'ahi a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mêza.
O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e obrigou-me a precedêl-o na entrada com gentil ademan de cortezão.
A meza era espaçosa de mais para quarenta talheres; mas tinha só dois.