—Siga o creado que o está esperando no corredor—tornou elle.
Sahi ao corredor. O creado que me estava esperando era o mais mal encarado homem que ainda vi na minha vida. Afusilavam-lhe os olhos como brazas. A testa, unico espaço alumiado d'aquella cara barbaçuda, sulcavam-na não sei se cicatrizes, se ulcerações da morphea. A corpulencia era agigantada, e o carregar do sobrôlho batia no coração d'um homem como o subito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta d'entre os carrascaes d'um deserto. Os pintores christãos nunca souberam bosquejar Lucifer, porque semelhante homem jámais deu nos olhos de artista, que desejasse fazer bem conhecida a plastica do diabo com feitio de gente.
Segui-o com calafrios, superiores á minha rasão que me aconselhava tranquillidade.
Hoje, volvidos quinze annos, conto isto com certo sorriso de facil coragem; mas, nos primeiros tempos, aquelle vulto andava terrivelmente associado ao quadro negro que vou tentar descrever.
II
O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmuneou:
—Levante o fecho, e entre.
Á primeira vista o que pude extremar das trevas era um clarão azulado, como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida pela escura algidez da alcova.
Avisinhei-me a passos tremulos da lampada, e distingui um leito, e na almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto de creança, e pude entrever um semblante de mulher, com os olhos cravados em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem de ser os dos spectros que surgem subitaneos nas trevas aos perversos que negam Deus e temem os espectros.
—Approxime-se, snr. A moribunda sou eu—disse ella com voz rouca, mas serena.