«Deus permittirá que V. Ex.ª esteja menos doente do que cuida—balbuciei com uma especie de terror secreto, presentimento d'alma que já se doía antecipadamente da magua que se lhe ia reflectir do singular e immenso supplicio d'aquella mulher.

—Falle baixo que nos escutam—voltou ella ciciando as palavras, e esbugalhando os olhos para a porta.

«Escutar-nos!—repliquei com assombro—É impossivel! Eu fui aqui enviado para ouvil-a de confissão, minha senhora...

—Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito baixinho... Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso como a um padre... É a um homem que ha de ter pena de mim, depois de me ouvir; e me ha de fazer um serviço que lhe pede uma agonisante, que crê em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que tem a semelhança do algoz que me mata.

Isto dizia ella de afogadilho e febril, mas com abafações e ancias augmentadas pelo medo de ser escutada.

«Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que lhe pezam na consciencia?!—perguntei.

—Não, snr.; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada; tenho soffrido todas as torturas d'este mundo; se as ha no outro, nenhuma póde assustar-me.

O meu dever seria combater a incredulidade d'esta senhora com os solidos argumentos de que dispõe a theologia contra mais poderosos adversarios; abstive-me, porém, de exacerbar o animo affligido da inferma por me parecer extemporanea a discussão e recear que o tempo escasseasse ao triumpho, nem sempre prompto, dos bons principios. Não obstante, repliquei, no intento de encaminhal-a á piedade:

«Se V. Ex.ª não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe em beneficio da sua alma...

—Vá vêr se alguem nos escuta...—insistiu ella, apontando para a porta com a mão descarnada.