Fui com repugnancia, figurando-se-me que a minha posição no gremio d'esta familia sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mysterio mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo do corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampeão a tremer baloiçado pelas esfusiadas de vento que assobiava no tecto. Fechei a porta, asseverando á enferma que ninguem nos escutava. Ella então sentou-se com violento impeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava, a côlcha da cama, bebeu alguns tragos de agua, e balbuciou com anciosas suspensões:
—Casaram-me ha seis annos com este homem que me mata. Eu amava outro homem, que não teve coração nem honra que me salvasse de tamanho verdugo. Meu pae sacrificou-me, cuidando que me felicitava. O homem que eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito que supportasse o peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o dono d'esta casa era deputado. Vim; e, ao cabo de alguns mezes, meu marido arrependera-se de se ter enganado, cuidando que uma mulher simplesmente formosa, mas sem amor, poderia encher-lhe as ambições, e dar-lhe o contentamento que ella não tinha. Saciou-se, enojou-se, aborreceu-me. Não me deu rivaes, por que só quem ama se sente ultrajada pelas infidelidades. Eu não conheci rivaes: conheci apenas mulheres que n'esta casa valiam e mandavam mais do que eu.
Voltou á camara meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com muitas lagrimas que me deixasse ir vêr meu pae, e meus dous irmãos que tinham vindo da Africa, onde haviam estado alguns annos negociando. Meu marido demorou-se anno e meio em Lisboa. N'este longo intervalo chorei muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei. Comprehende-me?
«Quando se vingou? como se vingou V. Ex.ª?!—perguntei.
—Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu forças... Houve um homem que teve por mim um grande amor e um grande dó. Amei-o. Luctei. Pedi a Deus que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi á alma de minha honrada mãe que me amparasse... pedi a meu marido que me deixasse ir para si ou para a companhia de meu pae... Nem Deus, nem minha mãe, nem meu marido me valeram... Succumbi... A minha culpa foi cega. Confiei-me d'uma creada que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada. Meu marido teve denuncia da minha queda, e appareceu aqui inesperadamente. Nada me disse. Tratou-me com a mesma frieza, com o mesmo despreso. Não estranhei. O homem, que eu amava, era ainda parente d'elle e estudava em Coimbra. Tinha coração cheio de ancias e desejos da morte. Comprehendeu este infeliz que meu marido desconfiava. Quiz fugir comigo para Hespanha, e eu resisti, mais por amor d'elle que do meu credito. O meu cumplice não podia com o encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em paiz estranho.
Passados dias, deixei de ter noticias d'elle. Imaginei-o já em Coimbra, posto que não fosse tempo de aulas. Correram trez mezes. Nova nenhuma. A criada que me fallava d'elle, recebido o premio da traição, tinha fingido que sua familia a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada que o parente de meu marido desapparecêra sem dizer a ninguem o seu destino; e que a familia d'elle vivia consternada com tal successo, enviando a toda a parte indagações inuteis.
Seis mezes depois que meu marido voltára de Lisboa, soube eu que se estava preparando este quarto por sua ordem. Vim vêr as obras, e perguntei-lhe para que era o armario estreito que se estava fazendo n'esta parede e para que eram as grades na janella. Meu marido respondeu: «Sabel-o-ha brevemente.»
Concluidas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com tudo que me pertencia.
Uma noite, meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro e disse-me: «A senhora entra aqui d'onde nunca mais sahirá; e para não estar sósinha, aqui lhe deixo uma adoravel companhia com quem póde conversar á sua vontade.» E, dizendo isto, abriu aquelle armario, e apontou para um esqueleto, dizendo: «Aqui tem o seu amante. Abrace-se n'elle até ficar reduzida ao estado em que lh'o offereço para que o possa gosar com toda a liberdade.»
Eu cahi por terra sem sentidos—proseguiu ella, limpando as lagrimas, e aspirando com força—Quando voltei á vida, cuidei que sahia d'um sonho. Ouvi dar meia noute. Era tudo escuridão n'este quarto. Apalpei á volta de mim. Não conheci onde estava. Continuei apalpando. Pousei as mãos n'uma coisa fria e aspera que estremeceu. Recuei horrorisada... Eram ossos... eram as costellas do esqueleto. Então acordei... então me fugiu outra vez a rasão com um grito do peito dilacerado. Cahi outra vez para diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente frios...—